Alquimista do Saber

“Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir.” Fernando Pessoa



Antes de escrever a postagem anterior, assisti um vídeo no youtube que fazia uma dramatização livre desse belíssimo poema, logo depois de assistir, procurei o poema de Fernando Pessoa com o Pseudônimo de Álvaro de Campos. Depois que li fiquei completamente absorvido por cada verso e cada palavra, não nego que fiquei um pouco pirado é tanto que a postagem anterior, além de ser extramamente subjetiva, tem seus toques de insanidades. Quero compartilhar com vocês esse belíssimo poema, não utilizarei de fotos, pois um poema desses faz você viajar nas melhores paisagens possíveis. Apreciem, se deliciam e não se esqueça, sinta a vibração desse poeta e dessa poesia.


TABACARIA
Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.


À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.


Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

Álvaro de Campos, 15-1-1928

Caso tenho interesse em ver o vídeo que relatei no início é só dar uma olhada, tá sem áudio e tal, mas tá com legenda e eu achei massa :D

Saudações poéticas.

Mais uma vez palavras e pensamentos puros e copiados bombardeiam meus neurônios, reconfortados e vibrantes pela insônia que o benzodiazepínico não conseguiu vencer, as ideias tateiam uma linearidade mórbida e coerente, mas ao tentar sair em palavras se revelam como devaneios de um louco que acha que consegue escrever algo, que a razão e a lucidez consigam saborear com o eterno gozo do 'entender', quero externar nesse texto, o que o interno não consegue compreender e o que a razão do pensar faz enlouquecer (ops, até rimar minha loucura faz brotar) Mas vamos lá, às vezes me prendo a norma didática do escrever, mas às vezes penso que ser certinho em textos seguindo as regras estabelecidas é uma forma de permear a lucidez e é dela que fujo na minha vontade de dormir e no meu sonho de despertar.


Depois dessa incongruente introdução, tentarei exprimir a real intenção dessa postagem, que você possivelmente esteja perdendo seu tempo lendo, não vou escrever de forma indireta, escreverei como se tivesse conversando com você, acho que você pode ter alguma vontade de conversar comigo certo?! Ok, aceitando ou não conversarei com você.

Acho que nesse período comemoro o início do meu declínio psicológico, mas comemoro também o início do meu despertar, acordar, voltar, começar, ressurgir, sei lá, qualquer coisa que termine com 'r' e seja um sinônimo do que quero falar, esse despertar surgiu de forma cautelosa e calculada, até se tornar uma dízima periódica na beira de um precipício de sentimentos involuntários nunca antes sentido, com a liberdade de viajar em um coração vazio, que facilmente poderia ser preenchido com a delicadeza selvagem do amor, sentimento esse que começa sendo real, se metamorfoseia em irreal, chegando ao patamar de surreal com pintadas de psicodelismo gutural de uma voz rouca de pedidos de socorros introspectivos, fazendo assim, uma combustão tão forte que toda a sonolência de vida antes sonhada, dar lugar ao anseio de não querer mais dormir e sim sonhar acordado com a doce emoção de se sentir despertado.

Quem um dia já sonhou chegar ao repouso eterno e querer conhecer o mistério que não foi revelado, se acovardando da realidade enfrentada, buscando a alternativa mais rápida e ágil para superar a dor desconhecida? Você não?! Pois eu sim! Ás vezes faça uma analogia dessa trajetória de vontade de dormir, com a Odisséia, me sentia como o Ulisses enfrentando à ira dos deuses, buscava na direção dos ventos e tempestades a minha rota nebulosa e sinuosa da busca incessante da paz de espírito, mas como encontrar a paz de espírito sofrendo as piores mazelas possíveis? A paz de espírito não era encontrada, mas a força de vencer gigantes era sempre saboreada, o aprendizado de vencer obstáculos impossíveis dentro da possibilidade do meu ser é algo que todos os livros que li e todo ensinamento dado pela condição humana nunca vai conseguir fornecer, somente sentindo e vivendo essa emoção, (que vou logo avisando não é boa e se puder escolher nunca mais quero voltar a sentir ela novamente) você pode abstrair todo esse aprendizado de vida.
Mas como Ulisses, eu tinha a esperança de encontrar o abrigo do destino percorrido e do sonhar nostálgico de novamente poder amar, no meu caso de conseguir amar, essa pode ser uma tarefa fácil para qualquer um, mas não para um lunático que resolve enfrentar os deuses em busca do desconhecido, na petulância voraz de conseguir vencer o próprio EU, delineando no fogo das amarguras a capacidade de se doar e ser preenchido não só pelo meu próprio egoísmo, mas pela troca recíproca de outro ser, que permeia esse EU em forma de sentimento ao ponto de fazer esse EU não ser mais EU e sim um EU mais outro EU pra chegar em um EU que não se conforma com a singularidade de ser apenas só UM [entendeu?] rs.
Acho que a prolixidade novamente afeta meus pensamentos, mas aposto que se você chegou até aqui não vai querer perder o final, mas como sou bondoso, aviso logo, vai ser tão chato quanto o início...
Portanto, acredito que cheguei novamente à margem, que a paz antes procurada e abafada pelas tempestades, se encontra em uma simbiose harmoniosa de viver momentos profícuos e inefáveis em belezas radiantes que a natureza oferece, com a brisa suave de um entardecer que vive a alegria de ter conseguido vencer com perseverança as tempestades que destruía a beleza de boas paisagens lúdicas de um sonho que ainda se faz realidade, esse é o meu despertar, acredito que antes as minhas forças vitais que estavam aos poucos se desligando desse mundo acelerado passam novamente a serem reanimadas, é como ter acordado de um coma ou como de uma hora para outra de forma inesperada e sorrateira conseguir encontrar na minha frente à margem tão desejada pelo meu barco que não suportava mais navegar, é como se o pesadelo do sonho acordado na vontade de dormir se transformasse no sonho acordado de alguém que foi despertado da letargia ofuscante do devir. Na Íza da aurora encontrei o refúgio e lugar onde pudesse repousar, não o sono eterno, mas o dormir sonhando acordado. Já que fui tão incoerente e devasso nesse texto, enfeitá-lo-ei com um pouco de poesia.

Enquanto você dormia, eu aprisionei o vento,
Silenciei os sons da noite, calei os seresteiros
Para que o silêncio embalasse teu sono: Esse é meu lado anjo da guarda.
Enquanto você dormia eu apaguei todas as estrelas,
Desliguei a lua, coloquei vaga-lumes atrás das montanhas
E pedi as nuvens para te embalar; esse é meu lado fada.
Enquanto você dormia encomendei um amanhecer perfeito,
Pedi ao sol para despertar depois de você
E iluminar os caminhos do teu dia...
[no momento ainda não sei o autor dessa poesia]
Sinto que como acordei da vontade de dormir estou com todos os motivos para está feliz, tudo está dando certo, tudo se transforma em paisagens e maravilhosos momentos, com a trilha sonora do amor, mas mesmo assim, o medo de viver ainda continua, as mazelas sofridas voltam como flashes e cada rajada mais forte de vento me atemoriza, algo me persegue como um vírus que ataca a minha melhor função corporal e me paralisa e me faz pensar e pensar, em quando vou ver, não estou pensando em nada e chegando a lugar nenhum, apenas devaneios e devaneios, que muitos diriam que poderia ser uma loucura que quer sempre brotar, o problema é que acredito que na verdade, ela que está sendo amordaçada pela máscara da lucidez que não canso de querer usar.

Saudações Despertada de um Sonho Acordado a todos.

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Contato: wesley_diogenes@hotmail.com Quero explicar que o nome alquimista do saber vem da ideia de uma busca constante do conhecimento e do aprendizado, é como se fosse um aventureiro em busca de uma dialogia de filosofias para chegar a um determinado conhecimento, o nome do blog não passa de uma analogia e não se configura como uma prepotência da minha parte.

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Brilhar para sempre,

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brilhar com brilho eterno,

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Já dizia Dostoiévski em os Irmãos Karamazov: "SE DEUS não existe e a alma é mortal, tudo é permitido"


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"Um alquimista é aquele que vive sua lenda, Desbrava o desconhecido, que sabe que para chegar ao impossivel tem que caminhar por caminhos impossiveis. Brilha sua luz!Sua individualidade coletiva questionadora. Vamos nessa! Navegar é preciso." Clenilson Batista

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